“É tempo de investir, de aumentar a competitividade das empresas portuguesas e de fazer subir o valor dos seus produtos”, afirma Armindo Monteiro. Em Portugal as empresas têm qualidades e vantagens competitivas para aumentar as suas vendas e quotas de mercado na América Latina. Dos 270 milhões de consumidores do Mercosul, cerca de 215 milhões vivem no Brasil e falam português.

 

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A aprovação pela União Europeia do acordo comercial com o Mercosul nos primeiros dias de janeiro de 2026 criou a maior zona de comércio livre do mundo. As confederações empresariais europeias, nas quais a CIP – Confederação Empresarial de Portugal se integra, saudaram de forma efusiva este acordo que põe fim a 26 anos de negociações entre a Europa e os quatro países do Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – e que abre grandes perspetivas de crescimento económico nos dois lados do Atlântico.

 

“A criação desta zona de comércio livre transcontinental dá uma indicação clara: é tempo de investir, de aumentar a competitividade das empresas portuguesas e europeias e de fazer subir o valor dos seus produtos”, afirma o presidente da CIP, Armindo Monteiro. “As empresas portuguesas têm qualidades e instrumentos para aumentar o valor acrescentado das suas vendas, melhorando de forma substancial as quotas de mercado na América Latina”.

 

Segundo o presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, é tempo de as políticas públicas dos países da União Europeias se tornarem aliadas estratégicas das respetivas empresas na competição que estas vão ter de travar com as concorrentes latino-americanas. “É fundamental que os governos, o Conselho Europeu e a Comissão Europeia cumpram as promessas de reformas que fizeram, por forma a permitir que as empresas invistam e criem empregos”, afirma Armindo Monteiro. “A diversificação comercial deve ser o foco essencial dos governos e das empresas europeias nos próximos anos, utilizando todo o potencial de crescimento que o acordo UE-Mercosul representa”.

 

A soma dos mercados da União Europeia com o Mercosul representa um produto interno bruto (PIB) combinado de cerca de 20 biliões de euros (12 zeros), equivalente a mais de 20 triliões de dólares na escala norte-americana. Acima, só o PIB dos Estados Unidos da América, que ronda atualmente os 30 triliões de dólares. A China fica atrás, com 19 triliões de dólares.

 

O novo mercado EU – Mercosul reunirá 700 milhões de consumidores e passará a representar 25% das trocas globais. Para começar, parte de um valor relativamente baixo: as trocas da União Europeia com a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai representaram no total 111 mil milhões de euros em 2024. Como termo de comparação, as trocas com os Estados Unidos ascenderam no mesmo período a 1,6 biliões de euros, cerca de 14 vezes mais. Mas o potencial de crescimento da troca de produtos e mercadorias entre o espaço europeu e a América Latina é gigantesco.

 

Com o acordo assinado no Paraguai a 17 de janeiro de 2026, o Mercosul eliminará tarifas sobre 91% das exportações da União Europeia (incluindo automóveis) ao longo de um período de 15 anos. A União Europeia, pelo seu lado, eliminará progressivamente as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul num período que poderá ir até dez anos.

 

Esta é uma boa notícia para as empresas dos países da União Europeia. Representa uma oportunidade para reverter o arrefecimento genérico que se verificou nos mercados ao longo de 2025, o qual foi agravado pela pressão suplementar que a política tarifária dos Estados Unidos da América provocou um pouco por toda a parte. As dificuldades sentidas, quer pelos países da União Europeia, quer pelos países do Mercosul, na relação comercial com os Estados Unidos desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, podem, a partir de 2026, ser compensadas pelo alargamento dos mercados para as empresas às geografias do outro lado do Atlântico.

 

Na última reunião de 2025 da BusinessEurope, a maior organização empresarial da Europa, as prioridades apontadas foram precisamente “a diversificação de mercados” e o “reforço de investimento em inovação”. Ou seja: ao investimento das empresas europeias para tornarem os seus produtos e serviços mais competitivos, devem corresponder políticas públicas da União Europeia e dos seus estados para abrir novos mercados em que estes possam ser colocados.

 

O acordo comercial UE – Mercosul abre este caminho. “É necessário promover uma visão pró-negócios, pró-economia e pró-competitividade que precisa de ganhar escala e ser comum a todos os parceiros europeus”, sublinha o presidente da CIP, Armindo Monteiro.

 

O ponto de partida para Portugal e para a Europa é favorável. Segundo a Comissão Europeia, os principais produtos exportados da União Europeia para o Mercosul são máquinas e aparelhos, produtos químicos e farmacêuticos e equipamento de transporte. Já a UE importa do Mercosul sobretudo produtos agrícolas, produtos minerais, pasta de papel e papel.

 

Há países que têm com o mercado do Mercosul uma relação equilibrada, caso da Alemanha, que tem uma balança comercial próxima, com um comércio total no valor de 28 mil milhões de euros: importa cerca de 14 mil milhões por ano e exporta sensivelmente o mesmo valor. Não é essa a situação de Portugal: por ano, Portugal exporta para os países do Mercosul mil milhões de euros e importa 3,5 mil milhões de euros de produtos e mercadorias.

 

A situação portuguesa é muito desequilibrada e é necessário invertê-la. As empresas portuguesas têm instrumentos, competências e dinâmica para isso. Cada vez mais os seus negócios são baseados na ciência e no conhecimento, negócios com grande profundidade digital nos diversos setores em que operam, negócios que empregam mão de obra qualificada e bem paga. As empresas portuguesas produzem um crescimento económico sustentável e inclusivo, o que as posiciona bem para a competição sem tarifas que vão passar a travar com as empresas do Mercosul.

 

Há também uma vantagem relevante que distingue as empresas portuguesas no conjunto da União Europeia: dos 270 milhões de consumidores que representa o mercado do Mercosul, cerca de 215 milhões estão no Brasil e falam português. Sendo a língua e a proximidade cultural uma vantagem relevante em qualquer negócio, neste caso permite também significativos benefícios adicionais na rotulagem, na comunicação, no marketing ou na publicidade.

 

O acordo UE – Mercosul é uma oportunidade estratégica para acelerar a transição da indústria portuguesa para uma economia mais tecnológica, mais digital, com maior sustentabilidade energética e ambiental. Estas são grandes vantagens competitivas que importa afirmar e desenvolver: a sustentabilidade e a circularidade são fundamentais para que o tecido empresarial de Portugal possa competir na América Latina com o dinamismo económico americano e asiático.

 

É necessário, por isso, que a indústria portuguesa – tal como o turismo, a agricultura, as pescas ou a floresta, o comércio e outros setores – se assumam como atores efetivos da modernização e da sustentabilidade das atividades económicas do país, aumentando a competitividade dos seus bens e serviços. Sem inovação clara, competente e disruptiva, não há competitividade no mercado global nem internacionalização sustentada das empresas portuguesas.

 

É fundamental, portanto, que as políticas públicas aumentem os incentivos ao investimento em inovação aplicada e na diferenciação dos produtos em Portugal, proporcionando condições para uma relação mais próxima entre as empresas e o sistema científico e tecnológico nacionais. Será a inovação produzida pela relação entre as empresas e centros de investigação a criar oportunidades de negócio para setores emergentes como a análise de dados, o design industrial, a robótica, a automação, a digitalização, a biotecnologia, a cibersegurança ou a Inteligência Artificial.

 

O XXV Governo Constitucional, o segundo liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, colocou como meta aumentar as exportações a partir de 2026 com vista a que o seu peso no PIB ultrapasse os 50% e se aproxime, gradualmente, dos 55%. Esta é uma meta positiva, uma vez que Portugal só alcançará um crescimento económico efetivo, com convergência real dos rendimentos “per capita” com a média europeia, se o peso das exportações no PIB aumentar.

 

Para tal é necessário que haja medidas claras, e apoios acessíveis e simples, para que empresas possam entrar e afirmar-se em novos mercados que – apesar do novo acordo UE – Mercosul – têm, e tenderão a manter por alguns anos, uma mentalidade formada por décadas de fechamento e por culturas estatais de colocar entraves à entrada de novos concorrentes. As medidas de apoio às exportações devem, por isso, ser complementadas com um reforço dos mecanismos de diplomacia económica do Estado português, seja diretamente pela AICEP, seja através do Ministério dos Negócios Estrangeiros e das respetivas embaixadas e consulados.

 

A CIP disponibilizou-se desde a primeira hora junto do Governo e da Presidência da República para colaborar na organização de comitivas empresariais ao Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, nas quais seja possível alinhar os interesses públicos e privados nacionais e afirmá-los em conjunto na América Latina. Para além dos países do Mercosul, também os mercados da Colômbia, Chile, Perú, Bolívia e, a seu tempo, o da Venezuela, são destinos das exportações portuguesas que devem abordados no âmbito de um trabalho conjunto a desenvolver pelas empresas e pelas instituições do Estado português com competências no comércio externo.

 

A construção da zona de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul inaugura uma nova era da cooperação entre os dois blocos, a qual favorece a competitividade da economia europeia e o reforço do diálogo político entre as duas regiões. As parcerias comerciais baseadas em regras são vantajosas para todas as partes, reforçam as respetivas soberanias e autonomias estratégicas e, neste caso concreto, irão moldar as próximas décadas da economia global.

 

O acordo com o Mercosul, para além do seu grande significado económico para a Europa, tem igualmente um enorme relevo geopolítico. Falta, por isso, à União Europeia levar a cabo um trabalho de convergência política que ultrapasse a oposição da França, Polónia, Áustria, Irlanda e Hungria à votação do acordo, e, também, a abstenção da Bélgica. Só uma Europa unida, e com os interesses dos tecidos empresariais dos 27 países bem alinhados, poderá retirar da entrada livre nos maiores mercados da América Latina todos os benefícios que estão ao seu alcance.

 

A redução da dependência dos mercados dos Estados Unidos e da China é um marco na história económica da Europa, proporcionando às empresas da União Europeia uma nova vaga de oportunidades para lutarem pela liderança dos mercados mundiais em diversos setores.

 

Quem somos:

A CIP — Confederação Empresarial de Portugal é a maior estrutura associativa empresarial portuguesa. Fundada em 1974, defensora da economia de mercado e promotora da iniciativa privada, a CIP é também a mais reconhecida Confederação de empresas em Portugal. Multissectorial, transversalmente implantada no território nacional e assente numa rede associativa patronal forte, abrangente e homogénea, a CIP representa mais de 150 mil empresas, cerca de 1,8 milhões de trabalhadores e 71% do Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal. Única confederação patronal portuguesa com assento quer no Diálogo Social Europeu, quer nas principais confederações de empregadores internacionais, a CIP é um parceiro social de mérito com voz ativa no Conselho Económico e Social. A construção de uma comunidade empresarial dinâmica, competitiva e empreendedora, impulsionadora de um saudável ambiente económico e geradora de riqueza são princípios de sempre da CIP — Confederação Empresarial de Portugal.

FONTE/CRÉDITOS: https://cip.org.pt/